O início da semana arrancou com o evento que promete fazer história em Coimbra: a inauguração das novas instalações da Critical Software, a empresa com maior projeção internacional jamais criada na cidade. O edifício apresenta-se como um conjunto arquitetónico que fundiu harmoniosamente o edifício clássico da Coimbra Editora com a modernidade do novo espaço alinhado com as necessidades da empresa. No exterior, um discreto LED estabelece relações a partir de uma expressão tão simples como "Olá vizinhos!". E na vizinhança existe um pouco de tudo: edifícios habitacionais, espaços comerciais, armazéns, prédios devolutos. Num dos andares superiores, duas pessoas falavam sobre um destes últimos, referindo como seria importante transformá-lo em estacionamento. Confesso que estremeci... não esperava escutar este desejo num espaço que tem uma paragem de MetroBus a meia dúzia de passos, o que permite deixar as duas toneladas de produtor de gases com efeito de estufa em qualquer zona fora da cidade, deslocando-se tranquilamente para o centro.
Neste simples pedido, encontramos tanto da mentalidade de Coimbra e de Portugal. Quando nesta cidade se fala em mobilidade, é provável que mais de 90% das pessoas pensem na melhor forma de levar o seu carro até à porta de um qualquer edifício. E, quando tal não é possível, abusa-se do passeio como que a dizer: isto é tudo nosso.
E é verdade. O espaço público é nosso, é de todos... e, precisamente por ser de todos, não pode ser sequestrado apenas por alguns. Trazer o carro individual para o centro da cidade e ocupar o espaço público é utilizar uma área que é de todos. Ora, sendo de todos, é justo que todos possam dela tirar benefício, sobretudo através dos benefícios que advenham do pagamento de taxas. Porque falar de mobilidade deve ter subjacente a ideia de sustentabilidade e de criação de uma cidade para as pessoas. Quantos mais lugares de estacionamento existirem no centro da cidade, menor é o espaço que pertence a todos nós. Não precisamos recuar muito tempo para lembrar que o estacionamento era permitido na Via Latina. Ainda hoje, custa a perceber como é possível estacionar na zona da Universidade, Património Mundial...
Coimbra chegou a um ponto de viragem. As linhas do MetroBus em funcionamento demonstram uma adesão enorme da cidade a este novo meio de transporte, rápido, fiável e sustentável. Se, até março de 2026, a taxa de ocupação dos SMTUC decresceu, essa tendência inverteu-se a partir dessa data, apresentando números superiores aos que antecederam a entrada em funcionamento das linhas do Metro Mondego.
E é aqui que precisamos de potenciar a mudança, aproximando-nos das melhores práticas de outros países europeus: eliminar ou reduzir ao máximo os lugares de estacionamento na cidade, aumentar os preços do estacionamento e fazer reverter essa verba na melhoria das condições para as pessoas (espaços verdes, jardins, equipamentos para crianças e seniores) e encontrar espaços fora do perímetro urbano para quem não tem outro meio de deslocação para a cidade.
Porém, mudar precisa de tempo... muita paciência, persistência e resiliência!
Poderá a escola ou a educação ser um fator de apoio?
Sem dúvida que sim. E foi a pensar nisso que a turma C, do oitavo ano da Escola Martim de Freitas, resolveu colocar no terreno uma ação prática. O Departamento de Mobilidade e Transportes da Câmara Municipal de Coimbra elaborou um conjunto de mapas e horários dos autocarros com percursos adequados às necessidades dos jovens. Nas aulas de Cidadania e Desenvolvimento, cada aluno procurou elaborar a sua rota para não utilizar carro particular no centro da cidade. No dia 30, celebrámos o Dia Internacional das Cidades com a colocação em prática do que se aprendeu. Ou, pelo menos, tentámos. Entre alunos que apanharam o autocarro errado e outros que foram de metro para o lado oposto à escola, a maior parte conseguiu chegar ao destino dentro do tempo previsto, potenciando o convívio e o diálogo entre si e aprendendo a olhar para a cidade com outros olhos.
Porque considero que o exemplo é a melhor forma de educar, o carro ficou em casa e o registo da ida e do regresso fica aqui. Autocarros pontuais, apps facilitadoras, viaturas limpas e adequadas às necessidades, semáforos, passadeiras, segurança; tudo correu tal como se espera num trajeto que é frequentado por crianças e jovens. Um único lapso: um carro estacionado na paragem de autocarro que condicionava a saída dos passageiros para apanhar o metro... a expressão "é só um bocadinho" continua a normalizar uma atitude de sequestro do espaço público que é de todos, por alguns que não percebem as vantagens dos transportes públicos como demonstração de evolução da sociedade!























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