O período eleitoral terminou. Ainda que os discursos oficiais sejam sempre do ponto de vista do copo meio-cheio, a verdade é que para os dois grandes partidos existem apenas 2 resultados objetivos: a vitória e a derrota. Tudo o resto são formas de procurar sarar as feridas. Por isso mesmo, ao longo desta semana, ainda se sente no ar (e nas redes sociais) a euforia dos vencedores e a azia dos vencidos.
Um dos aspetos mais importantes em termos sociais do processo eleitoral é o envolvimento de tantas cidadãs e de tantos cidadãos. De acordo com os dados da CNE, deram entrada cerca de 12370 listas candidatas aos diferentes órgãos das Eleições Autárquicas: Assembleia Municipal, Câmara Municipal e Assembleia de Freguesia (e não Junta de Freguesia como apareceu nos cartazes de diferentes partidos). Números muito acima de 250.000 pessoas que estiveram envolvidas nas candidaturas dos diferentes partidos, coligações e movimentos.
O meu foco nestes números prende-se com a participação das e dos Jovens na vida política do país. Quem andou no terreno na última semana percebeu a quantidade dos que se sentiram envolvidos e que deram a cara por um conjunto de ideias que consideraram benéficas para os seus territórios. Mas estas pessoas não podem ser abandonadas.
Quando, em 2005, fui eleito para a Assembleia de Freguesia de Almagreira a reunião de tomada de posse foi surreal. Nada me tinha preparado para o que fui encontrar. O ambiente era pacífico e cordato (como não poderia deixar de ser, entre pessoas que conhecem, respeitam e que sempre foram amigas). Ainda assim, eu não tinha a mínima consciência do que iria acontecer, dos passos a seguir e de qual a postura a adotar. Valeu-me o bom-senso (o que quer que isto seja).
As/os eleitas/os irão tomar posse no próximo mês de outubro. Desse conjunto, haverá um grupo considerável que nunca passou por um desses momentos e que terá de tomar decisões logo na primeira reunião. No caso dos Órgãos em que existe maioria absoluta, a falta de experiência pode ser embaraçosa, mas não condicionará o futuro. O mesmo não se passará nos locais onde os vencedores não conseguiram maioria, sendo necessário estabelecer acordos entre diferentes partidos e/ou grupos. E é aqui que não podemos deixar ninguém para trás. Ninguém se pode sentir abandonado. Quem deu tudo o que tinha por um partido/coligação/movimento, precisa sentir que faz parte de algo que proporciona o apoio necessário ao eficaz desempenho de funções. Se isto não aconteccer, o risco de perdermos essas pessoas da vida política é enorme e todos seremos responsáveis pelo contínuo aumento das taxas de abstenção. Quem se desilude e sente que foi deixado ao abandono, dificilmente regressa e tende a afastar-se de todos os atos de decisão.
Mas não serão os únicos. Existem também muitos milhares que aceitaram colocar a sua foto nos cartazes e nos panfletos e que não foram eleitos. É importante não os perder, fazendo-lhe perceber que serão importantes para o futuro das suas aldeias, vilas e cidades, pois a sua presença no terreno e junto das Pessoas é uma mais valia inigualável que congrega conhecimento da realidade e relações humanas. E são essas relações que criam sentimento de pertença a um grupo e que mobiliza em direção a um objetivo comum. Acresce que a mobilização destas Pessoas e das respetivas famílias será, à partida, uma excelente ferramenta para que se sintam impelidas a votar e a não deixar as decisões para outr@s.
Em véspera de eleições, um familiar dizia-me que alguns partidos se assemelham a um estudante Universitário que só se lembrou de estudar para o Exame na véspera. E é nessa linha que considero que a abstenção se deve começar a combater já... não é na ou nas semanas anteriores, com palavras bonitas de responsáveis políticos ou com campanhas da CNE. A abstenção combate-se no terreno, envolvendo as pessoas nos diferentes atos e abrindo espaço para possam intervir. Nos órgão autárquicos e nos partidos... todas e todos contam.
Não deixemos ninguém ao abandono!
A Teoria da Mudança ensina-nos que as pessoas, por norma, são muito resistentes à mudança. Mesmo quando nos queixamos do estado das coisas e afirmamos peremptoriamente que tudo tem de mudar, a verdade é que estamos pouco dispostos a fazer parte da mudança. Esperamos que outros mudem mas que isso não interfira com a nossa vida. Sair da nossa zona de conforto não nos estimula minimamente e provoca em nós uma reação adversa. Só há uma coisa à qual as pessoas reagem pior do que à mudança: a Diferença. Se olharmos para a História, podemos confirmar que, quem era diferente, era perseguido e a sua vida sempre esteve em risco. Tomemos como exemplo "as bruxas": mulheres, independentes e que não seguiam as normas estandardizadas. Como tal, não era compreendidas pela maioria mainstream . Assim, eras perseguias e queimadas para se acabar com essa diferença. Por isso mesmo, ainda hoje, utilizamos com regularidade o termo "caça às bruxas". Infelizmente, cada vez com mais frequê...

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