Ao longo destas semanas tenho andado a pensar que tipo de abordagem deveria ter… dirigir-me à geração do Facebook, a do cotas (na qual claramente me incluo)? Sim, sim… já estamos naquela idade que, com 15 anos dizíamos ser a idade dos cotas…
À geração do Instagram? Aquela geração na qual tentamos desesperadamente entrar para nos sentimos mais jovens, mesmo que não tenhamos apetência nenhuma para umas fotos com bico de pato, efeitos, autocolantes e afins???
Ou à geração do Tiktok? Aquela com a qual termos mais dificuldade em entrar, pois o voltaren diário não nos permite fazer aquelas coreografias todas tão bem sincronizadas???
Ainda pensei pedir ajuda ao ChatGPT, Perplexity, Gemini, Copilot, Deepseek…
Como não me consegui decidir, optei por vir aqui contar uma história…
Não uma história qualquer mas algumas histórias relacionadas com a minha infância e juventude.
Eu sou natural dos Vascos… uma pequena aldeia da Freguesia de Almagreira, no concelho de Pombal. A ida para a escola fazia-se a pé (não era longe, 1,5km), quer chovesse quer estivesse sol. Estes 1500 m tanto poderiam demorar 15 minutos ao final do dia, como duas ou três horas, que incluíam brincadeiras (lembro-me de quanto gostava de fazer ventoinhas com cascas de eucaliptos) ou fazer os trabalhos de casa em cima de uma pedra. Em casa, ninguém se preocupava. Vínhamos em grupo e a comunidade olhava por nós.
Lembro-me do Centro de Saúde ao qual era necessário chegar pelas 6 da manhã para garantir uma das 12 consultas que o médico fazia. Muitas horas até às 9, em que as pessoas aproveitavam para colocar a conversa em dia. E, por conversa em dia, falo de crítica gratuita à vida das pessoas (o meu pai costumava chamar O Tribunal, tal era o julgamento que se fazia das pessoas).
Lembro-me das histórias que aprendi no Grupo Folclórico… histórias do campo. De como os capatazes iniciavam uma canção ou uma reza para ser seguida pelos trabalhadores. Se, por um lado, tinham o objetivo de ritmar o trabalho para aumentar a produtividade, por outro lado era uma forma de cortar com as conversas que se viravam para a maledicência sobre pessoas que não estavam presentes mas que poderiam redundar em -- entre os que ali se encontravam.
Lembro-me dos cafés no centro de Almagreira onde os homens (e apenas os homens) se juntavam após o almoço ou durante a missa (à qual iam, sobretudo, as mulheres e as crianças que estavam na catequese). Jogavam às cartas, bebiam café com cheirinho, praguejavam, falavam mal das mulheres, do patrão, dos políticos, do padre, dos professores. Depois disso, quando chegavam a casa, descarregavam a frustração em quem estava mais perto…
Lembro-me de escrever cartas… cartas dos meus avós para os meus tios que estavam em França e cartas para uma correspondente que tive em Mons, na Bélgica. Lembro-me do ritual: procurar papel de carta, escrever, passar a limpo, ir comprar envelope, comprar selos, colar selos no envelope (a geração tiktok pode ser fazer belas coreografias… não deve imaginam as coregrafias que fazíamos para colar um selo). Finalmente, colocar numa cadeira à beira da estrada, com 40 escudos, para que o carteiro, o Sr. Diamantino, a levasse quando passasse na sua motorizada.
E a palavra ritual foi escolhida propositadamente. É que para um ritual, precisamos de tempo.
E hoje, vivemos muito apressadamente. Respondemos a emails mal os recebemos. Sem pensar… sem qualquer espírito crítico. Reparem que este ritual permitia refletir sobre o que escrevíamos. Até o carteiro chegar, no dia seguinte (ou até dois dias depois), ainda tínhamos tempo de corrigir o que tínhamos colocado por palavras.
Postamos, repostamos, comentamos e opinamos com uma velocidade enorme. O tempo é nosso inimigo. Chronos, o deus do tempo, comia os seus filhos mal nasciam. Cada vez mais, é isso que sentimos… que somos comidos pelo tempo. Temos uma necessidade urgente de responder às solicitações digitais que se cruzam com os nossos sentidos e não temos tempo para refletir nos impactos das nossas ações. Ao contrário do ritual da carta, o email pode ser respondido em segundos. O que ganhamos em produtividade, perdemos em reflexão. Provavelmente, perdemos em EMPATIA.
E o tempo é nosso inimigo ainda de outro ângulo…
O que os homens diziam nos cafés, as mulheres nos trabalhos agrícolas e as pessoas em geral no centro de saúde de Almagreira perdia-se após esse momento ou, no máximo, tinha algumas repercussões limitadas no número de pessoas que tinha escutado.
O tempo esvaziava as polémicas. Ao fim de alguns dias, quase ninguém se lembrava do que tinha acontecido. As marcas eram mais passageiras.
Hoje, acentua-as…
O que se publica no Facebook, no X, nas caixas de comentários dos jornais permanece. Uma vez na internet, para sempre na internet… e, mais cedo ou mais tarde, irá voltar-se contra nós.
Como cantava a Sara Tavares, "sei que posso fazer tudo/mas nem tudo me convém/
O que escolho fazer hoje/Vou vivê-lo amanhã".
É aqui que entra a cidadania digital. O Conselho da Europa apresentou 2025 como o Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital. E a palavra Educação é fundamental. Precisamos trabalhar com as crianças e jovens alguns conceitos como Direitos Humanos, Discurso de Ódio, Segurança Digital, Desinformação, Ciberbullying mas, sobretudo, EMPATIA. Devemos lembrar um truque básico de publicação nas redes sociais: seria capaz de dizer isto em voz alta, num café? Ou melhor, seria capaz de dizer isto em voz alta nesta sala do TUMO?
E para testar ainda melhor a nossa capacidade de empatia, podemos fazer outro teste:
Antes de postar: THINK
Is it True?
Is it Helpful?
Is it Important?
Is it Necessary?
Is it KIND?
Mas a Educação não acontece apenas na Escola. A escola é um elemento fundamental mas não o único. Educação acontece na família, primeira educadora. Acontece no TUMO. Acontece nos Escuteiros, nos Grupos Informais de Jovens, na Catequese, nas juventudes partidárias. Acontece no Mercado Municipal, acontece na Biblioteca Municipal, acontece nos museus, no teatro, no cinema…
Coimbra integra a rede europeia de Cidades Educadoras e esse é um bom sinal para todos nós. É um sinal de que a cidade, enquanto comunidade, está disposta a dar as mãos e a unir todas as suas estruturas para Educar as crianças e Jovens, na lógica do provérbio africano de que para educar é necessária toda a uma aldeia.
E reparem que, ao longo deste meu longo texto, nunca referi a palavra proibição.
No lançamento do ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital, a representante das Confederações de Pais referia que "Proibir é ensinar os nossos filhos a mentir". Educar não é proibir. É ensinar a usar. O digital está connosco e é uma ferramenta fundamental que facilita o nosso trabalho. Em 2023, mais de 40% das capacidades procuradas pelo mercado de trabalho são diferentes das de hoje e serão ligadas ao digital. Fará sentido andarmos a discutir proibições ou deveríamos pensar em autorregulação? E aqui, surge uma outra palavra que vos queria deixar: CONFIANÇA.
Com 16 anos, os meus pais deram-me autonomia para ir de motorizada aos bailes a Almagreira, ao domingo à noite. Com 17 deixaram-me ir com amigos passar férias ao Algarve, onde eles nunca tinham ido. Fomos a geração que mostrou à Ministra da Educação umas partes que deveriam ter estado ocultas (por causa das provas globais). Fomos a geração que foi acusada de ser menos inteligente do que a anterior por estarmos demasiado expostos ao écran da televisão (onde é que eu já vi isto?). Fomos a geração acusada de apenas escutarmos ruído. Tenho de agradecer à Ti Arminda, a minha vizinha do outro lado da rua, por nunca ter reclamado comigo por escutar Nirvana e Smashing Pumpkings num volume muito acima do recomendado, aos sábados de manhã). Mas fomos uma geração na qual os nossos pais confiaram.
Autonomizaram-nos, confiaram em nós, confiaram na Escola e confiaram na Educação que eles nos deram. Sabiam o que tinha semeado. Confiaram em nós e confiaram no processo. Repito: confiaram em nós e confiaram no processo. As novas gerações são muito mais cultos, muito mais informados e muito mais leitores do que eu era na idade deles. Não sou eu que o digo. São análise estatísticas. Confiamos nos nossos jovens como os nossos pais confiaram em nós? Como os pais deles tinham confiado neles?
No Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital, temos este desafio de promover nas crianças e jovens a EMPATIA, CONFIANDO neles, CONFIANDO no processo, promovendo a sua AUTONOMIA desde muito cedo, tornando-os Cidadãs e Cidadão mais Conscientes e Ativos, no Digital ou no mundo Real.
Muito obrigado!!!

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