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Coimbra 1996-2017 (1)



Vim para Coimbra em Outubro de 1996, para frequentar o curso de Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas. Nessa época, apenas conhecia os Hospitais onde, ciclicamente, vinha visitar algum familiar aí internado. O meu Bilhete de Identidade dizia que eu era natural de Coimbra ainda que fosse uma cidade quase desconhecida para mim.
Os primeiros tempos foram de descoberta. Inicialmente na Sé Velha, posteriormente na Conchada e, mais tarde, na Rua Pe António Vieira. Como seria típico de alguém que viveu numa pequena aldeia durante 18 anos, esta cidade parecia muito grande e tudo parecia muito distante. Os percursos faziam-se todos a pé, fosse de dia, fosse de noite. Ao sábado de manhã dirigia-me à Estação de Coimbra para apanhar o comboio que me levaria de regresso para algumas horas em família. Até lá, passava pela baixa de Coimbra com um número impressionante de pessoas que por ali faziam compras ou passeavam a ver montras. Era o local mais cosmopolita da cidade. No final da semana, regressava no comboio das 10 da noite e, sem qualquer problema, atravessava a baixa e as escadarias em direção à Conchada e mais tarde, à Pe António Vieira. Problemas? de 1996 a 2001, o tempo que passei a estudar na Faculdade, nem um...
Com o tempo, foi começando a descobrir os encantos desta bela cidade. A segunda-feira era o dia típico para um estudante se deslocar ao Avenida para uma sessão de cinema mais barata.Fosse um filme comercial, fosse uma das sessões alternativas que ali eram oferecidas, eram momentos que me ajudavam a aumentar o sentimento de pertença.
Havia, porém, um aspeto que incomodava. Em Lisboa e Porto falava-se de grande centros comerciais, com grande salas de cinema. Coimbra tinha o Avenida e o Girassolum... dizia-se que era o Presidente da Câmara da altura que não permitia a abertura desses centros comerciais. Nessa altura não percebia o porquê dessa decisão, considerando-a até absurda (não sei se era isso que se passava o não, mas era o que chegava aos nossos ouvidos).
Em 2001 vou trabalhar e estudar para França. E foi num pequeno quarto no Lycée Scolaire Jean Moulin que recebi um sms: terramoto nas autárquicas em Portugal, Guterres demite-se e abandona o governo... também em Coimbra se viveu um pouco desse terramoto. As pessoas quiseram mudar e, naturalmente, a cidade também mudou.
Já de regresso a Coimbra, presenciei algumas inaugurações de obras projetadas pelo executivo que tinha saído derrotado: Ponte Rainha Santa Isabel e Parque Verde Mondego. Mas novas obras nasceram também em Coimbra: dois gigantes centros comerciais, um no centro da cidade e outro bem perto do centro. Mais tarde dois parques de venda a retalho... fantástico... finalmente tinha muitas salas de cinema... e McDonald's... e lojas de roupa... e... e... e...
As minhas passagens pela baixa da cidade foram sendo reduzidas... tal como eu, as pessoas começaram a mudar os seus hábitos e rotinas. As compras fazem-se à noite e aos fins-de-semana. Não foi, por isso, de estranhar que as lojas começassem a fechar, as casas tenham começado a ficar com um aspeto mais degradado e as nas ruas exista uma sensação de cidade do faroeste americano, uns minutos antes de um duelo mortal. A Baixa tocou o fundo quando foi necessário tapar as vitrines das montras com desenhos de crianças para disfarçar o abandono total daquela zona.
Porém, nos últimos anos tudo mudou...
Hoje, posso ir passear com os meus filhos para a Baixa que tenho espaços abertos ao fim-de-semana ou aos feriados para comer um gelado, uma nata, um bolo do caco...
Posso atravessar para Santa Clara e sentar-me numa esplanada a experimentar uma waffle, um crepe ou outras iguarias, uma vez que aquela zona se tornou uma área aprazível e não uma gigante placa giratória para automóveis que se deslocam para norte...
Hoje, posso estacionar o carro e caminhar nessas zonas porque existem passeios largos e seguros para o fazer.
Hoje posso assistir a espetáculos de qualidade durante o ano todo numa sala verdadeiramente excecional ou divertir-me no verão na grande diversidade de eventos noturnos que são agora promovidos em diferentes áreas da Baixa...
Em 2013 votei pela primeira vez em Coimbra (até aí, a minha morada fiscal era Almagreira). Foi, talvez, o início de um maior sentimento de pertença a uma cidade que muito bem me acolheu. E este sentimento aumenta cada vez mais com a valorização que vou sentindo, nesta que é considera a cidade dos Estudantes, mas que é, acima de tudo, a cidade de todos nós que aqui vivemos, que a conhecemos e que a sentimos a percorrer todas as nossas veias.

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